I - 05.Desejo
O mercado de Àtria parecia ferver apesar do leve frio que fazia naquela manhã. Eram muitos os tipos de mercadorias que eram vendidas ali, entretanto, eram as peles e os mantimentos que mais se destacavam em meio àquelas variedades de sons e cores que explodiam em meio as inúmeras pessoas que se aglomeravam nas estreitas ruas de Átria. Tipicamente uma cidade comercial, Átria ou a cidade do reino, além do mercado, possuía um grande porto onde produtos de todas as partes de Krios eram desembarcados e abasteciam desde a população com alimentos e víveres para enfrentar o rigoroso inverno até a corte real que vivia no interior do palácio de Átria.
Toda aquele mundo de sons e cores parecia ser novo para Akill que olhava tudo com grande curiosidade. Em meio a sua nova descoberta, ele não percebia os olhos das outras pessoas o acompanhando. Mark, por outro lado, logo percebe a reação que Akill causava nas pessoas e, com uma expressão séria, repousa a mão sobre sua espada . Ele não gostaria de ter que usá-la ali, mas não hesitaria se fosse preciso. Logo em seguida, o meio-elfo olha para Akill que também já havia percebido a reação das pessoas.
- Eh... será que as pessoas vão aceitar um escravo liberto como empregado.
- Você não precisa citar que já foi um escravo. Apenas diga que quer emprego. – Mark pára e olha ao redor tentando encontrar o melhor caminho para o destino que tinha em mente – Ninguém precisa saber detalhes do nosso passado.
Akill contem uma suave risada imaginando se existiam muitos Filhos de Érios que não seriam escravos. Mark volta a caminhar e Akill o segue tentando não se distanciar muito do companheiro. Apesar da vontade de parar e observar todas as novas coisas que via, ele não queria se perder no meio daquela multidão.
Mais algum tempo de caminhada e Mark encontra o que procurava: a pensão “Lobo da Neve”. O espadachim já havia permanecido algumas vezes ali e sabia que, apesar de não ser muito cara, o lugar era bem aconchegante.
Assim que entra, Mark anda em direção ao balcão deixando Akill para trás. No balcão uma mulher de olhar sereno dava ordens para um garoto de cabelo claro. Logo ela percebe a chegada do meio-elfo e se aproxima mostrando um lindo sorriso.
- Olá... no que posso ajudá-lo?
- Olá, eu gostaria de um quarto para dois por alguns dias.
- Oh, sim. Deixe me ver. Temos dois quartos vagos, mas um deles já está reservado. Restou apenas o do fim do corredor. – Ela sorri novamente como a se desculpar – Não é um dos nossos melhores quartos, mas posso fazer um preço bom para o senhor.
- Tudo bem. Vamos ficar com ele mesmo. Muito obrigado.
Mark procura Akill com os olhos e o encontra observando dois garotos que brincavam na rua.
- Akill!? Vamos!?
Akill se volta para o meio-elfo e o acompanha. Após subirem uma escada e percorrerem todo o corredor, eles alcançam o quarto indicado pela dona da pensão. Mark é o primeiro a entrar logo seguido por Akill.
Apesar da pouca luz do lugar, Mark logo percebe o que aquela senhora queria dizer. Havia poucos móveis no recinto: duas camas, algumas cadeiras, uma cômoda para guardar roupas. Mais no fundo ficava o banheiro onde uma enorme camada de sebe denunciava a má conservação do lugar.
Sem se importar muito com isso, Mark joga suas coisas sobre uma das camas e se vira para Akill.
- O que acha?
- Não é nada mal. – o ex-escravo olha para a janela coberta por trepadeiras.
- Bem... é o que temos no momento. Vamos arrumar as coisas e deixar o local um pouco mais confortável. - Mark começa a caminhar pelo local e acende um lampião que se encontrava no canto. O quarto torna-se parcamente iluminado. – Qual das camas você prefere?
- Qualquer uma.... mas talvez você fique melhor perto da janela... é mais frio lá.
Falando isso, Akill caminha até a janela e fica observando o movimento da rua. Mark se aproxima e tenta ver por cima do ombro de Akill. Nesse momento, o jovem garoto vira-se bruscamente e seu rosto fica a poucos centímetros do de Mark. O meio-elfo quase consegue sentir a respiração suave do outro sobre seu rosto enquanto a sua torna-se cada vez mais rápida. Ciente disso, ele se afasta tentando retomar o controle.
- Aconteceu alguma coisa? – pergunta um Akill intrigado.
- Ah.... não... eu só queria saber o que você estava olhando...
- Então vem cá... – fala Akill se afastando um pouco para dar espaço a Mark. - Tem tanta gente diferente lá embaixo.
Akill se inclina novamente para fora da janela e Mark, mais confiante, o acompanha. Com aquela proximidade, o meio-elfo conseguia sentir o leve aroma dos cabelos do belo rapaz. Uma tensão diferente começa a percorrer seu corpo. Não conseguia entender a dúvida dentro dele. Os sentimentos que lhe atacavam eram tão diferentes e ele não sabia como lidar com eles.
- Nunca havia visto tanta gente diferente junta. – fala Akill, hipnotizado pelo vai-e-vém das pessoas lá embaixo. – Todas parecem tão incrivelmente interessantes. Assim como as que eu encontrava nos livros.
- Mas a vida real é bem diferente das estórias escrita por poetas. Mesmo aquelas que se dizem verdadeiras, sempre possuem um pouco de fantasia para deixá-la mais interessante.
- Você acha?
Akill vira-se bruscamente e, outra vez, o rosto dos dois ficam a poucos centímetros um do outro. Dessa vez, Mark não consegue se afastar, hipnotizado por aquelas esplêndidos olhos violeta. Seus olhos agora repousam sobre aqueles lábios que aparentavam ser mais doces que o mais puro néctar jamais produzido pela mais perfeita flor de toda Krios. Se o próprio Érios pudesse tomar uma forma carnal, certamente seria aquela forma que agora estava bem à frente de Mark.
Parecia que mil anos haviam se passado desde o momento que o meio-elfo se deixou hipnotizar por aquele belo rosto e, quando volta à realidade, os lábios de Akill estavam tão próximos que era difícil resistir ao desejo de tocá-los. Os lábios dos dois se tocam. Apenas um leve roçar, mas a sensação que trouxe foi intensa como se fluísse de um para o outro num ciclo interminável. Nunca em sua vida, Mark havia sentido algo assim. Com certeza, se sua vida findasse agora, ele estaria satisfeito.
- M-me desculpe... – gagueja Mark se afastando de Akill que permaneceu com os olhos fechados por algum tempo como se aquela sensação ainda fluísse em seu corpo.
- Por que “desculpas”? – Sussura Akill com o rosto ainda bem próximo ao de Mark. – Por muitas vezes, eu era obrigado a satisfazer meu mestre contra minha vontade. Mas, com você, sinto que é diferente. Sinto que esta também é minha vontade. Vontade de ficar junto com você.
Os rostos dos dois se aproximam mais ainda e seus lábios se tocam novamente. Diferente da vez passada, o beijo é mais profundo, mais intenso. Não havia mais anseio ou dúvida. Apenas desejo.
Mark conduz Akill até a cama mais próxima e os dois se deixam cair sobre ela. Em meio a beijos e carícias, eles vão se livrando de suas roupas. Seus corpos pediam por isso, necessitavam desesperadamente por aquele contato há tanto tempo reprimido. Primeiro com seus dedos, depois com seus lábios, o meio-elfo explora cada centímetro do corpo do ex-escravo. Cada elevação, cada nuance daquele corpo esguio que agora era seu e...
Toc-toc-toc. O som de batidas na porta faz os dois pularem. Mark chega a cair da cama de susto.
- Eu trouxe toalhas limpas...
A voz parecia ser da dona da estalagem.
- Só um minuto. – responde Mark.
O meio-elfo repõe suas roupas rapidamente e vai até a porta. Antes de abrir, dá uma última olhada para Akill se certificando que ele também já esteja vestindo. Mesmo não sendo da conta de ninguém o que acontecia entre os dois, sempre era bom tomar alguns cuidados.
- Muito obrigado.
Mark recebe as toalhas um pouco amareladas pelo uso e, logo em seguida, fecha a porta. Ele vai até o cubículo onde ficava o banheiro e deposita as toalhas sobre uma pia improvisada. Seu coração ainda batia num ritmo rápido devido ao ocorrido. Decide, então, tomar banho para aliviar a tensão denunciada pelo volume em suas calças.
- Mark!? – Chama Akill do quarto.
- Sim?
- Você vai tomar banho?
- Sim.
- Quer que eu tome banho com você?
- Não... não. Eu gostaria de ficar um pouco sozinho.
- Oh... sim. Tudo bem então.
Mark sente a decepção na voz de Akill e um sentimento de culpa o aflige. Seu corpo parecia suplicar desesperadamente pelo de Akill, mas sua mente estava confusa. Não sabia o que realmente estava sentindo e não queria magoar Akill alimentando algo que pudesse ser ilusão.
A água fria consegue, por fim, acalmar o corpo e a mente de Mark. Iria aproveitar as poucas horas de sol que restava para procurar um trabalho. Iria ao porto, nessa época abarrotado de navios trazendo víveres do sul. Com certeza, poderia conseguir algo lá.
Quando sai do banheiro, Mark encontra Akill ainda deitado sobre uma das camas. Este ao ver o outro chegando, levanta-se com uma expressão preocupada no rosto.
- Você está bem? – indaga Akill.
- Sim, sim. – responde Mark rapidamente. – Acho que as coisas aconteceram rápido demais. Só estou um pouco confuso.
Os dois permanecem em silêncio sem conseguir se olhar. Um brisa fria entra pela janela balançado uma velha cortina roída por traças.
- Vou sair um pouco. Vou atrás de um trabalho. – fala Mark indo até sua bolsa.- Não devo demorar muito.
- Tudo bem. – responde Akill ainda sem olhá-lo.
- Se estiver com fome, peça algo lá embaixo. Ponha na minha conta, certo?
- Sim.
- Até logo.
Mark sai deixando um triste Akill no quarto. Ver o ex-escravo daquele jeito, afligia Mark por dentro. Não conseguia entender como havia se apegado tanto àquele garoto em tão pouco tempo.
Chegando no andar de baixo da estalagem, o meio-elfo dá algumas instruções a dona do local e, em seguida, ganha as ruas movimentadas de Átria. Ele olha para a janela do quarto onde estava hospedado com Akill e, por um segundo, tem a impressão de ver a silhueta do ex-secravo por detrás das cortinas. Sendo ou não, ele tinha que seguir em frente. Não era hora para dúvidas ou arrependimentos. Tinha que ser confiante se quisesse conseguir algum trabalho ali e, com esse pensamento, ele caminha em direção ao porto de Átria.
