I - 04. O Caminho para Àtria
Ele olha ao redor. Não sabia porque estava ali, mas de algum jeito sabia que estava em perigo. A névoa, quase fantasmagórica, impedia-o de ver o que estava mais à frente. Ele, então, aguça a visão para tentar enxergar algo, mas nada vê. De repente, uma sombra surge em meio à névoa. A sombra crescia e crescia à medida que se aproximava até tomar forma. Aquela forma... aquele homem Ele tenta fugir, mas parecia não sair do lugar. A cada momento, o homem estava mais perto. Ele sabia qual era seu objetivo. Queria lhe fazer mal, queria lhe fazer sofrer e ele nada podia fazer além de correr. O homem estende o braço e o alcança. O brilho de uma lâmina rasga a escuridão. A lâmina desce rápida, sem hesitação, e...
Mark acorda assustado após o pesadelo. Automaticamente, ele olha ao redor certificando-se de onde estava. Sua respiração ainda estava ofegante e seu corpo transpirava. Há anos, aquele pesadelo lhe assombrava, mas já fazia algum tempo que não o tinha.
Mais calmo, o meio-elfo se depara com Akill deitado ao seu lado. E passa a admirar a beleza do ex-escravo. Mesmo para os padrões de um Filho de Érios, Akill possuía uma beleza fora do comum. Seus longos cabelos caiam delicadamente por seu lindo rosto e a única coisa que cobria seu corpo era os farrapos Worms que os escravos usavam e que quase nada escondia. Surge então, em Mark, um impulso de tocar o garoto, mas o meio-elfo pondera se deveria ou não. Sua mente dizia que aquilo não era certo, entretanto, seu corpo parecia gritar mais alto de desejo. Por fim, sua mente se dá por vencida e Mark estende a mão para tocar o rosto de Akill. Nesse exato momento, o ex-escravo acorda.
- Mark? Aconteceu algo?
- Não... nada... – Mark tenta disfarçar suas intenções, mas seu rosto cora – apenas tive um pesadelo.
O espadachim se levanta tentando esquecer o ocorrido e esconder o resquício de desejo que ainda pulsava em suas calças.
- Er... desculpe por vir dormir aqui do seu lado, mas fiquei preocupado em você pegar um resfriado. Achei melhor ficarmos juntos pra nos manter aquecidos.
- Esqueça. – Mark responde sem olhar para Akill. Não queria lembrar do que estivera prestes a fazer. - Vamos. Já era hora de partir – Mark oferece a mão para ajudar Akill a se levantar.
Akill ainda parecia um pouco confuso com tudo, mas aceita a ajuda do outro. Quando já está de pé, ele vê o companheiro começar a juntar seus pertences e cobrir a fogueira. Ele, então, pega a capa que usara para dormir e, ao tentar entregá-la a seu dono, este faz um gesto para que ele continue usando-a.
- Vamos andando. Ainda temos uma boa caminhada pela frente. – Mark começa a caminhar e chama Akill para fazer o mesmo.
Os dois homens caminham um ao lado do outro sem falar nada. Assim permanecem por um bom tempo, imersos em seus próprios pensamentos. Após alguns minutos de caminhada, Mark olha para o garoto ao seu lado e percebe seu semblante carregado. Parecia que alguma coisa o preocupava. É então que ele decide quebrar o silêncio que perdurava.
- Alguma coisa está te preocupando?
O garoto olha para Mark e demora algum tempo para responder.
- Você... você está me preocupando.
Mark ao ouvir isso pára e olha para o jovem que ainda dá alguns passos antes de parar também. Por que aquele garoto se preocupava tanto com ele? Não tinha sido ele que havia acabado de escapar de uma vida de escravo? Não seria ele a pessoa que precisava de ajuda?
- Estou bem... não se preocupe. Tenho esses pesadelos desde criança.. fazia tempo que não os tinha... mas... logo passa... – O meio-elfo não consegue evitar um suspiro e acaba desviando o olhar – Desculpa... faz algum tempo que ninguém se preocupa comigo – Ele sorri tentando demonstrar gratidão – Obrigado...
Akill retribui o sorriso e os dois voltam a caminhar. O vento gélido agora soprava ruidosamente sobre seus corpos. Para Mark era um alívio, mas parecia que seu companheiro não estava muito à vontade com isso. Ele resolve conversar para tentar distraí-lo.
- Você já esteve em Átria?
- Não. Nunca sai da casa dos meus donos. Como é lá, em Átria?
- É um lugar bastante movimentado... e muito bonito. Acho que poderei conseguir algum trabalho no castelo real.
- Quem sabe eu consiga algo também.
- É... quem sabe.
- É tão bom te ver sorrindo... – Akill fala indicando o sorriso que havia se formado no rosto de Mark.
- Eh.. bem.. também tem a área de comércio, também poderei procurar por emprego lá.
Novamente, as palavras de Akill haviam pegado Mark desprevenido o deixando ruborizado. Ele não costumava demonstrar seus sentimentos, mas era tão fácil conversar com aquele garoto. O meio-elfo olha pelo canto dos olhos para Akill e pega-se admirando a beleza do jovem rapaz outra vez. O que estaria acontecendo consigo?
Ao longe, as torres do imponente castelo de Átria começavam a surgir rasgando o céu.
- Olhe... lá está, o castelo de Àtria. – aponta Mark.
- Nossa... é muito mais bonito do que imaginei... espero que nosso destino também seja tão belo quanto.
Mark não responde ao comentário do garoto e apenas sorri. Entretanto, em sua mente, ele pensa consigo: “Também espero...”.
