Silver Chaos - BL Game

domingo, 25 de fevereiro de 2007

I - 03. O Ex-escravo e o Meio-elfo

Enfim, o sol começa a se pôr no horizonte indicando aos dois viajantes que era hora de descansar. Eles já haviam percorrido um bom caminho e faltava pouco para chegar a cidade do reino. Durante toda a caminhada, os dois não haviam trocado uma palavra sequer. Mark passara todo o tempo absorto em seus pensamentos sobre o que fazer para ganhar dinheiro quando chegasse à cidade. Já o jovem rapaz, imaginara Mark, devia estar habituado a respeitar o silêncio de seu mestre.

Mark pára e olha ao redor procurando um lugar para passarem a noite. Logo avista uma floração rochosa que certamente os protegeria do vento frio que soprava ruidosamente agora. Ele caminha até lá seguido de perto pelo garoto de cabelos encaracolados.

A floração rochosa não passava de um aglomerado de rochas em formato de semicírculo que isolaria o lugar do vento frio e o manteria aquecido com a ajuda de uma boa fogueira. Espalhados pelo chão, havia vários galhos secos que Mark apanhou a fim de acender a fogueira. Enquanto os apanhava, o meio-elfo observou o ex-escravo ainda tenso. Instantes depois, uma pequena fogueira crepitava no centro do semicírculo com os dois viajantes sentados ao seu redor.

Mark estava sentado em uma pedra procurando algo em sua bolsa enquanto o ex-escravo, do outro lado, estava sentado sobre o chão abraçando as próprias pernas e observando atentamente o meio-elfo em sua procura. Mark, então, puxa um pedaço de pão e o divide em dois. Oferece um ao garoto a sua frente que o recebe, balbuciando um agradecimento, e se põe a comer vagarosamente o outro.

- Você não fala muito, não é? – Indaga Mark mastigando seu pedaço de pão.

O jovem escravo, meio que desperto de um tipo de transe, olha para o meio-elfo com seus tristes olhos violeta e, como se estivesse escolhendo bem as palavras, responde.

- Er... acho que falo tanto quanto meus senhores acham adequado.

Pelo jeito, aquele garoto ainda não tinha percebido que não pertencia a mais ninguém. Que era livre para dizer ou fazer o que quisesse.

- Então.... você ainda não me disse seu nome.

- Akill... Akill Alabá.

- Me chamo Mark Chambers. – Mark dá um sorriso retribuído timidamente por Akill. - Pois bem, Akill, o que sabe fazer? Precisamos arranjar algum trabalho.

- Sei cuidar da casa, do estábulo e... fazer as coisas que um escravo deve fazer.
Nesse momento, Akill, vermelho como um tomate, baixa a cabeça envergonhado pelo que disse. Apesar do jovem não ter dito, Mark sabia muito bem o que eram essas tais “coisas que um escravo devia fazer”. Achou melhor não tocar mais no assunto. Estava pensando o que falar agora quando Akill quebra o silêncio.

- Também sei ler. Meu irmão me ensinou.

- Muito bom que saiba ler. Aprendi com minha mãe o hábito da leitura. É muito necessário... você disse que seu irmão lhe ensinou a ler?

- Er.... não era bem meu irmão. Era o filho do meu antigo senhor. – Mark percebe que a voz do garoto começa a vacilar novamente. - Um dia, ouvi meu antigo senhor dizendo que pai era aquele que cria, que alimenta. Eu o considerava meu pai também. Por isso que chamava o filho dele de irmão, mas ele nunca soube disso. Ele fazia travessuras quando pequeno e, para não ser castigado, eu assumia a culpa. Em troca, ele me ensinava a ler. Depois, quando já havia aprendido, eu trocava favores por livros... – Akill desvia o olhar de Mark e observa as chamas bruxuleantes da fogueira. - até que um dia, nosso pai me deu pra ele. Depois disso, ele só me dava livros quando tinha vontade. Não eram muitas vezes. Cheguei a pegar alguns escondido. Sei que é errado, mas eu gostava muito de ler. Era como se pudesse ir aonde quisesse... Mas aí, colocaram todos os livros em uma grande sala e logos eles foram sendo vendidos, um a um. Depois a mobília... depois eu... – De repente, Akill volta o olhar para Mark - e você me comprou.

- Acho que você deseja saber porquê resolvi te comprar, não é?- Mark se cala esperando uma confirmação de Akill. Este apenas desvia o olhar novamente. - Akill, como você, eu também já fui escravo. – Esta afirmação, faz Akill olhar novamente para Mark com uma cara de quem não consegue acreditar no que ouve. - Tive a sorte de passar algum tempo junto de minha mãe e ela me ensinou muitas coisas, inclusive que devemos ajudar outras pessoas mesmo estando em pior situação. Um dia, tentei proteger minha mãe de nosso dono. Como punição, fui vendido, mas a pessoa que me comprou não me queria como escravo, mas sim, como companheiro... infelizmente... – O meio-elfo olha o horizonte já totalmente imerso na escuridão. Ainda era difícil falar sobre aquilo. – ele não está mais aqui... mas deixou tudo o que tinha comigo. Desse modo, eu pude comprar a sua liberdade.

Estranhamente, Mark se sentia mais aliviado por dizer aquilo tudo. Carregar aquilo sozinho era muito difícil para si mesmo e aquele garoto à sua frente parecia sofrer de um mal parecido. No fim das contas, aquela conversa parecia ter trazido algo de bom para os dois.

- Acho melhor por mais lenha na fogueira.

Dizendo isso, Mark se levanta e vai até uns galhos secos mais afastados. Quando ele volta, encontra Akill encolhido apertando as pernas contra o corpo. Parecia que os truques que o meio-elfo sabia fazer para resistir mais ao frio o haviam feito esquecer de como as noites eram geladas naquela região. Era melhor aumentar a fogueira ou, então, seu amigo iria morrer congelado.

Após adicionar uma boa quantidade de lenha a fogueira fazendo-a aumentar um pouco, Mark vai até Akill e coloca sua capa sobre o garoto.

- Acho que você vai precisar mais disso do que eu. Gosto desse clima e não precisarei da capa. Você pode usá-la por enquanto.

- ehhh... o-obrigado...

- Eu estava pensando em ir para a capital do reino. – Fala Mark caminhando de volta ao seu lugar. - Acho mais fácil encontrar serviço por lá, o que você acha?

Akill, agora parecendo bem mais disposto, responde.

- Não sei muito sobre isso. O que você decidir estará bom pra mim.

- Tudo bem. Está tarde, é melhor dormirmos. Amanhã levantaremos cedo – Mark se levanta e vai até um lugar mais afastado da fogueira onde se acomoda para dormir enquanto Akill faz o mesmo. – Durma bem, Akill...

- Tem certeza de que não quer a capa? Não vai se resfriar dormindo aí?

- Não se preocupe – responde Mark já acomodado num canto – como te disse, meu corpo suporta muito bem o frio. Vai precisar da capa mais que eu.

- Tá.... então, boa noite.

Akill se deita ao lado da fogueira enrolando-se o mais que pode na capa. Do outro lado, Mark fecha os olhos tentando dormir, mas sua mente estava repleta de pensamentos. Precisava arranjar logo um emprego. Ele tenta imaginar o que poderia fazer, mas só lhe vem usar sua habilidade com a espada. Resolve, então, pensar nisso depois. Ele se vira e tenta relaxar. Logo em seguida, o sono chega e ele se deixa envolver em seus braços.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

I - 02. O Leilão de Escravos

Em um pequeno lugarejo à margem do caminho para Átria, a cidade do reino, começava os preparativos para um leilão de escravos em meio a uma pequena praça. Muito comum naquela região, os leilões de escravos representavam uma das principais atividades comerciais do continente de Beum só perdendo para o lucrativo comércio de jóias. Várias jaulas de madeira montadas sobre carroças eram colocadas ao lado de um tablado elevado onde alguns worms, criaturas humanóides de aparência grotesca e hábitos truculentos, descarregavam a mercadoria. Tratava-se de gamelianos ou ‘Filhos de Èrios’ que se aglomeravam num canto tentando se proteger do frio da nublada manhã.

Após a queda do regente de Gamaliel, a maior parte dos habitantes daquele reino havia sido dizimada e, o restante, transformada em escravos para os mais variados tipos de trabalhos. Entretanto, devido à beleza singular dessa raça, era muito comum encontrar gamelianos usados como escravos sexuais. Muitas histórias eram contadas sobre a origem dessa peculiaridade, mas, a principal, era a de que Èrios, deus do amor e da beleza, havia atendido a um pedido de Nars V, príncipe regente de Gamaliel, abençoando o reino com beleza e prosperidade. Entretanto, o príncipe faleceu subitamente jogando em desgraça toda a raça dos gamelianos que passaram a se chamar ‘Filhos de Érios’.

Após toda a mercadoria ser colocada sobre o tablado, um worm gordo e baixo, que aprecia estar no comando, chama um de seus empregados e ordena que os machos sejam separados das fêmeas. Geralmente, os espécimes machos de ‘Filhos de Érios’ eram os que alcançavam maiores preços devido à versatilidade tanto para trabalhos braçais quanto para fins sexuais. Em meios a empurrões e chutes, os machos e fêmeas são postos em pontos extremos do tablado. Logo após terminado a separação, o worm chefe se vira para o público e anuncia o leilão do carregamento originado de uma família de worms falidos.

Nesse momento, Mark, que acabava de chegar ao vilarejo, vê uma enorme movimentação ao redor da praça do lugarejo e aproxima-se tentando descobrir do que se tratava. Logo percebe que era um leilão de escravos e, mesmo já tendo presenciado muitos leilões assim, o sangue meio-elfo de Mark começa a esquentar ao se deparar com aquela cena.

No alto do tablado, um worm corpulento puxa um dos escravos e empurra-o para frente da multidão. O jovem, com cerca de 20 anos, era muito alto e possuía um corpo bem definido atraindo olhares gulosos das pessoas na multidão. Seus longos cabelos encaracolados emolduravam um rosto delicado e triste, mas, mesmo assim, incrivelmente belo. O jovem encara a multidão com dois lindos olhos violeta enquanto o worm gordo e baixo o rodeia averiguando o quanto poderia conseguir pelo escravo. Ele se vira para a multidão e anuncia um lance inicial de 15 moedas de ouro e logo esse valor começa a crescer exponencialmente à medida que mãos vão sendo levantadas requerendo a posse sobre a mercadoria.

Mark primeiro observa o triste rosto do garoto sendo leiloado e depois olha para um homem grande e gordo que parecia muito interessado em vencer o leilão julgando pelas altas cifras oferecidas. Mark já havia sido escravo uma vez. Pior, havia nascido escravo e, durante boa parte de sua vida, havia se sujeitando aos piores tipos de humilhações que uma pessoa poderia imaginar. Isso havia sido há muito tempo, mas as feridas pareciam estar abertas na pele do meio-elfo novamente queimando-lhe o corpo como brasa. Ele olha novamente para o garoto e toma uma decisão. Sabia que não podia salvar a todos, mas, pelo menos aquele garoto não passaria pelo mesmo que ele havia passado.

- Quem dá mais!? Quem dá mais!?

- Eu! - Todos olhavam para Mark que abria caminho por entre a multidão. - Ofereço tudo que possuo... uma casa e um taverna em Goldar.

O vendedor worm analisava Mark de cima a baixo como a verificar se realmente ele possuía o que havia dito. Fingindo não ouvir o que o meio-elfo havia dito, ele continua o leilão.

- Alguém dá mais!? Alguém!?

- Ninguém dará lance maior que o meu. Aceite a oferta e deixe-me ficar com ele.

- Dou-lhe uma... dou-lhe duas... dou-lhe três! Vendido para o baixinho de orelhas pontudas aqui!

O gordo Worm vai até o jovem escravo e o empurra na direção da escada. Desequilibrado, o garoto rola escada abaixo e cai de cara no chão. Mark se aproxima para ajudar, mas o garoto é mais ágil se levantando e pondo-se de joelhos aos pés de seu novo dono. O meio-elfo, então, passa pelo garoto e vai até o worm entregando as escrituras dos bens e recebendo em seguida o documento de posse do escravo. O vendedor ainda olha desconfiado para Mark que se vira e segue até o garoto novamente sem se importar com isso.

- Me acompanhe.

O jovem escravo põe-se de pé num movimento e acompanha Mark até se afastarem da multidão. Quando alcançam uma boa distância, Mark puxa sua espada e quebra os grilhões que prendiam o garoto.

- Está livre... vá embora.

Mark se vira e começa a caminhar deixando para trás o “ex-escravo” perplexo com o que acabara de ouvir. Mark ainda dá uma última olhada para o rapaz e, para sua surpresa, percebe que ele não está mais perplexo e, sim, apavorado. Os lábios do rapaz tremem no esforço de conter as lágrimas e ele se joga aos pés de Mark.

- Senhor, não! Eu imploro! - agora o garoto chorava desesperadamente – Não sei se fiz algo muito errado, mas não fiz por mal! Perdão, senhor, não me castigue assim!!!

Mark fica um tanto constrangido com a cena e seu rosto cora. Ele olha ao redor verificando se alguém presenciava aquela cena.

- Espere, você entendeu tudo errado. Não estou lhe castigando. Eu apenas o libertei. – Mark ajoelha-se ficando a altura dos olhos do garoto – Você não precisa ser escravo a vida toda... se quiser, venha comigo, mas não como escravo. – O meio-elfo se levanta novamente analisando a situação – Terei que arrumar algum serviço... tudo o que tinha, usei para te comprar, mas sei que podemos nos virar. E, por favor, solte os meus pés... eu.... bem... vamos andando.

Mark se desvencilha do rapaz e recomeça sua caminhada. Ainda sem entender, o jovem, trêmulo, levanta-se e começa a seguí-lo mantendo-se sempre um pouco atrás. O meio-elfo caminha lentamente deixando o ar frio tocar seu rosto apreciando a sensação de estar nas terras gélidas. Ele havia nascido ali, numa cidade próxima, mas há muito tempo havia ido embora para um lugar mais quente, mais seguro e mais feliz.

Olhando para trás, ele vê aquele jovem que ele acabara de libertar ainda agindo como um escravo. Isso o incomodava e ele solta um longo suspiro. Lembrava-se do momento que havia ganhado a liberdade. Sabia que era difícil acostumar-se com aquela nova condição. Resolve então esquecer isso, o garoto iria perceber aos poucos como era ser livre. Ainda faltava um bom tempo para escurecer e ele precisava chegar às terras do reino logo. Precisava encontrar algum serviço ou ambos não sobreviveriam.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

I - 01. Memórias no Gelo

No horizonte branco da imensidão gelada de Gamaliel, o sol despontava tentando trazer um pouco de alegria e luz àquelas tristes e sombrias terras. Gamaliel ou Aeon, como era conhecida antes, já possuiu uma beleza deslumbrante, mas, após a morte trágica de seu governante, foi invadida e destruída pelo reino vizinho, Maruck. Hoje, o povo de Gamaliel vivia escravizado e a terra que se orgulhava da sua prosperidade agora afundava numa decadência sem fim.

A pouca luz que o sol trazia irrompia entre as cinzentas nuvens e não duraria muito tempo, mas era tempo suficiente para Mark Chambers fazer o que precisava. Enfrentando o vento ainda frio daquela manhã, ele caminhava por entre arbustos cobertos de neve em direção a um lugar considerado sagrado pelo povo local. Chegando lá, em meio a inúmeras lápides, ele procura uma em especial. Após uma breve caminhada, ele a encontra e logo se ajoelha fazendo um leve cumprimento.

- O tempo passa rápido, não é mesmo? – Lahila Kalid. Ele lê mentalmente o nome gravado na pedra fria da lápide. – Às vezes, eu me perguntava porquê você não havia me dado seu sobrenome. Hoje sei que ele só me traria sofrimentos... assim como trouxe a você.

Mark usava sua capa displicentemente e o intenso frio do local parecia não afetar nada seu corpo. O vento forte balança seus longos cabelos negros juntamente com sua capa mostrando uma espada que ficava presa em seu cinto. Mark faz mais algumas preces pedindo proteção e sabedoria para o que estava preste a fazer. Nunca em sua vida ele havia pedido algo aos deuses, mas, agora, ele sentia que necessitaria de toda a ajuda que surgisse.

Ao se levantar, o espadachim é tomado por um súbito dever de visitar outro túmulo. Ele tenta rejeitar esse pensamento. Aquela lembrança lhe trazia grande sofrimento e ele havia jurado esquecê-la de vez apesar dos momentos felizes que passara junto da pessoa que lá jazia. Entretanto, como um animal enjaulado que é solto, as lembranças invadem sua mente. As cenas passavam e giravam dentro de sua cabeça numa velocidade alucinante. Mais uma vez, ele se sentia impotente diante daquilo tudo. Mais uma vez, ele se culpava por tudo que havia acontecido.

De repente, Mark volta de seus pensamentos e percebe que havia caminhado até o exato local do outro túmulo. Diferente da vez passada, ele não se ajoelha, mas uma lágrima escorre pelo seu rosto.

- Queria que ainda estivesse aqui comigo...

Mark enxuga a lágrima em seu rosto e deixa o local decidido a esquecer seu passado de vez. Uma nova vida lhe esperava e ele não queria levar nada daquela terra de sofrimento e angústia consigo. Venderia seus pertences e seguiria num barco para o sul deixando para trás todos aqueles que já havia amado em sua vida enterrados sob o gelo eterno de Beum.