I - 03. O Ex-escravo e o Meio-elfo
Enfim, o sol começa a se pôr no horizonte indicando aos dois viajantes que era hora de descansar. Eles já haviam percorrido um bom caminho e faltava pouco para chegar a cidade do reino. Durante toda a caminhada, os dois não haviam trocado uma palavra sequer. Mark passara todo o tempo absorto em seus pensamentos sobre o que fazer para ganhar dinheiro quando chegasse à cidade. Já o jovem rapaz, imaginara Mark, devia estar habituado a respeitar o silêncio de seu mestre.
Mark pára e olha ao redor procurando um lugar para passarem a noite. Logo avista uma floração rochosa que certamente os protegeria do vento frio que soprava ruidosamente agora. Ele caminha até lá seguido de perto pelo garoto de cabelos encaracolados.
A floração rochosa não passava de um aglomerado de rochas em formato de semicírculo que isolaria o lugar do vento frio e o manteria aquecido com a ajuda de uma boa fogueira. Espalhados pelo chão, havia vários galhos secos que Mark apanhou a fim de acender a fogueira. Enquanto os apanhava, o meio-elfo observou o ex-escravo ainda tenso. Instantes depois, uma pequena fogueira crepitava no centro do semicírculo com os dois viajantes sentados ao seu redor.
Mark estava sentado em uma pedra procurando algo em sua bolsa enquanto o ex-escravo, do outro lado, estava sentado sobre o chão abraçando as próprias pernas e observando atentamente o meio-elfo em sua procura. Mark, então, puxa um pedaço de pão e o divide em dois. Oferece um ao garoto a sua frente que o recebe, balbuciando um agradecimento, e se põe a comer vagarosamente o outro.
- Você não fala muito, não é? – Indaga Mark mastigando seu pedaço de pão.
O jovem escravo, meio que desperto de um tipo de transe, olha para o meio-elfo com seus tristes olhos violeta e, como se estivesse escolhendo bem as palavras, responde.
- Er... acho que falo tanto quanto meus senhores acham adequado.
Pelo jeito, aquele garoto ainda não tinha percebido que não pertencia a mais ninguém. Que era livre para dizer ou fazer o que quisesse.
- Então.... você ainda não me disse seu nome.
- Akill... Akill Alabá.
- Me chamo Mark Chambers. – Mark dá um sorriso retribuído timidamente por Akill. - Pois bem, Akill, o que sabe fazer? Precisamos arranjar algum trabalho.
- Sei cuidar da casa, do estábulo e... fazer as coisas que um escravo deve fazer.
Nesse momento, Akill, vermelho como um tomate, baixa a cabeça envergonhado pelo que disse. Apesar do jovem não ter dito, Mark sabia muito bem o que eram essas tais “coisas que um escravo devia fazer”. Achou melhor não tocar mais no assunto. Estava pensando o que falar agora quando Akill quebra o silêncio.
- Também sei ler. Meu irmão me ensinou.
- Muito bom que saiba ler. Aprendi com minha mãe o hábito da leitura. É muito necessário... você disse que seu irmão lhe ensinou a ler?
- Er.... não era bem meu irmão. Era o filho do meu antigo senhor. – Mark percebe que a voz do garoto começa a vacilar novamente. - Um dia, ouvi meu antigo senhor dizendo que pai era aquele que cria, que alimenta. Eu o considerava meu pai também. Por isso que chamava o filho dele de irmão, mas ele nunca soube disso. Ele fazia travessuras quando pequeno e, para não ser castigado, eu assumia a culpa. Em troca, ele me ensinava a ler. Depois, quando já havia aprendido, eu trocava favores por livros... – Akill desvia o olhar de Mark e observa as chamas bruxuleantes da fogueira. - até que um dia, nosso pai me deu pra ele. Depois disso, ele só me dava livros quando tinha vontade. Não eram muitas vezes. Cheguei a pegar alguns escondido. Sei que é errado, mas eu gostava muito de ler. Era como se pudesse ir aonde quisesse... Mas aí, colocaram todos os livros em uma grande sala e logos eles foram sendo vendidos, um a um. Depois a mobília... depois eu... – De repente, Akill volta o olhar para Mark - e você me comprou.
- Acho que você deseja saber porquê resolvi te comprar, não é?- Mark se cala esperando uma confirmação de Akill. Este apenas desvia o olhar novamente. - Akill, como você, eu também já fui escravo. – Esta afirmação, faz Akill olhar novamente para Mark com uma cara de quem não consegue acreditar no que ouve. - Tive a sorte de passar algum tempo junto de minha mãe e ela me ensinou muitas coisas, inclusive que devemos ajudar outras pessoas mesmo estando em pior situação. Um dia, tentei proteger minha mãe de nosso dono. Como punição, fui vendido, mas a pessoa que me comprou não me queria como escravo, mas sim, como companheiro... infelizmente... – O meio-elfo olha o horizonte já totalmente imerso na escuridão. Ainda era difícil falar sobre aquilo. – ele não está mais aqui... mas deixou tudo o que tinha comigo. Desse modo, eu pude comprar a sua liberdade.
Estranhamente, Mark se sentia mais aliviado por dizer aquilo tudo. Carregar aquilo sozinho era muito difícil para si mesmo e aquele garoto à sua frente parecia sofrer de um mal parecido. No fim das contas, aquela conversa parecia ter trazido algo de bom para os dois.
- Acho melhor por mais lenha na fogueira.
Dizendo isso, Mark se levanta e vai até uns galhos secos mais afastados. Quando ele volta, encontra Akill encolhido apertando as pernas contra o corpo. Parecia que os truques que o meio-elfo sabia fazer para resistir mais ao frio o haviam feito esquecer de como as noites eram geladas naquela região. Era melhor aumentar a fogueira ou, então, seu amigo iria morrer congelado.
Após adicionar uma boa quantidade de lenha a fogueira fazendo-a aumentar um pouco, Mark vai até Akill e coloca sua capa sobre o garoto.
- Acho que você vai precisar mais disso do que eu. Gosto desse clima e não precisarei da capa. Você pode usá-la por enquanto.
- ehhh... o-obrigado...
- Eu estava pensando em ir para a capital do reino. – Fala Mark caminhando de volta ao seu lugar. - Acho mais fácil encontrar serviço por lá, o que você acha?
Akill, agora parecendo bem mais disposto, responde.
- Não sei muito sobre isso. O que você decidir estará bom pra mim.
- Tudo bem. Está tarde, é melhor dormirmos. Amanhã levantaremos cedo – Mark se levanta e vai até um lugar mais afastado da fogueira onde se acomoda para dormir enquanto Akill faz o mesmo. – Durma bem, Akill...
- Tem certeza de que não quer a capa? Não vai se resfriar dormindo aí?
- Não se preocupe – responde Mark já acomodado num canto – como te disse, meu corpo suporta muito bem o frio. Vai precisar da capa mais que eu.
- Tá.... então, boa noite.
Akill se deita ao lado da fogueira enrolando-se o mais que pode na capa. Do outro lado, Mark fecha os olhos tentando dormir, mas sua mente estava repleta de pensamentos. Precisava arranjar logo um emprego. Ele tenta imaginar o que poderia fazer, mas só lhe vem usar sua habilidade com a espada. Resolve, então, pensar nisso depois. Ele se vira e tenta relaxar. Logo em seguida, o sono chega e ele se deixa envolver em seus braços.

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